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Um encontro histórico

MestresDando início à mesa redonda Encontro com os Mestres, a diretora do VIVADANÇA, Cristina Castro, afirmou que aquele se tratava de um "encontro histórico". Realmente, foi mais um daqueles momentos inesquecíveis do Festival. Quem foi assistir, na manhã de domingo (03/04), no Teatro Vila Velha, Antonio Nóbrega, Tadashi Endo e Luis Arrieta, num bate-papo sobre dança, viu, em primeira mão, um encontro inédito: ao final do debate, Antonio Nóbrega e Tadashi Endo fizeram uma improvisação em parceria inédita, ao vivo.

 

Além dos movimentos, os "mestres" levaram ao público Mestrestambém um pouco da sua sabedoria, através de suas falas. Leda Muhana, diretora da Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e mediadora do encontro, começou com uma provocação. Lançou aos artistas o questionamento: qual a relação entre o corpo e a cultura? Luis Arrieta não hesitou em responder: "Qualquer coisa que façamos, está cheia de informações sobre a nossa cultura". Posteriormente, ele acrescentaria: "Não preciso me fazer de latino-americano. Eu sou completamente latino-americano"

 

Antonio Nóbrega e Tadashi Endo fizeram uma reflexãoMestres sobre sua trajetória até aquele momento. Nóbrega disse que "Foi a dança que chegou até mim, e não o contrário" e contou como ocorreu seu encontro com a cultura popular e como passou a se sentir atraído pelo frevo e outras danças, cantos e ritmos brasileiros. "Meu corpo parecia muito inapto para a dança clássica ou moderna, daí comecei a estudar. Conheci as danças clássicas da Índia e percebi que eram muito diferentes. (...) As danças são diferentes em suas formas, mas idênticas em seus princípios", explicou. "Cada artista carrega um léxico, influenciado pela sua cultura", concluiu, lançando ainda o questionamento de qual seria, no Brasil, o nosso corpo, o nosso léxico.

 

Mestres

Também fazendo uma reflexão sobre sua história, Tadashi Endo disse que nasceu na China (seus pais trabalhavam em uma escola japonesa na China, no período) e foi, ainda bebê, para o Japão, onde viveu até 1970. Desde então, mora na Europa, principalmente na Alemanha. "Para falar do corpo japonês, teria que ler livros, estudar", brincou. Tadashi admitiu que, inicialmente, tinha um interesse muito grande pela cultura européia e que foi só quando percebeu que estava sozinho em outro continente, que era totalmente exótico ali, que começou a procurar mais informações sobre seu país de origem. Com mais de 30 anos, foi tentar aprender oMestres balé clássico - uma tarefa muito difícil, se não impossível naquele momento. Assim, depois de experiências em grupos, passou a tentar trabalhar sozinho. "Nunca aprendi realmente a dança, mas meu corpo queria dançar", disse.

 

Ao contrário do Brasil, onde todos poderiam ser "um típico brasileiro", Tadashi disse que, no Japão, existe um sentimento forte do que é típicamente japonês. "O corpo japonês tem um espaço entre as pernas, quase um cosmo entre elas. Além disso, as pernas japonesas são mais curtas, o contato com a terra e a energia da terra é mais rápido que no corpo ocidental", falou de forma bem-humorada. Depois, explicou que o Butô surgiu justamente a partir de um trabalho para o corpo japonês, um protesto contra as formas tradicionais (tanto japonesas, quanto no sentido do balé clássico) de se fazer dança. "Hoje, acredito que precisamos trabalhar com um novo Zeitgeist, um novo tempo, um novo estilo. Para mim, esta é a oportunidade de buscar diversas referências e fazer uma combinação. E o Brasil é perfeito para isso", arrematou.

 

Sobre a diversidade brasileira, Nóbrega ainda comentou: "A nossa riqueza pode ser também a nossa debilidade. Porque se a gente deglute tudo, quando vamos buscar o que somos, não encontramos nada. Precisamos ter os pés bem seguros no chão, ao mesmo tempo que temos que deixá-los livres para assimilar outras influências". Luis Arrieta, então, complementou: "Minha avó me falava que esse negócio de fronteiras e de países é uma invenção do homem".

 

 

*Crédito das fotos: João Meirelles.